terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Voltando após longo tempo sem passar por aqui. Vou recomeçar postando uma das antigas.

Poesia Existencial I

Dedos lépidos em silhuetas
onduladas, brochura esquecida,
rabiscada em papel vergê.

Rosto pálido de feição blasé,
enluarado à paisana do tempo,
barba navalhada démodé.

Boca palavrada de infâmia,
língua mórbida, entrecortada,
rasgada da sede de dizer.

Tudo na mais perfeita
simbiótica da existência,
de se ter o maquinário da vida,
sem o ser.

[Sois o que?]

                        Poesia viva, estereotipada,
                        acaudilhando um corpo
                        através dos olhos, como se
                        fossem tela "despolegada" de tv.

quinta-feira, 20 de março de 2014

POEMETOS

I
Segue o caminho adiante
cego e veloz.

Quem alcança
e roda a dança
completa o passo?

O pé à frente e atrás
à frente, pé atrás
em nova manobra.

Um ponto certo nunca é certo
não há chegada
 e nem agora que não outrora.

As variáveis partem distintas
em retas de curvadas mazelas.

Encontrar-se-ão
 em qualquer tempo
as paralelas?

II 

Mesmo curto o caminho do girassol
e certo e pendular e previsível
como sou e é você

Não a reconheço no campo
ou não a vejo e nem me vê.

Comum e raso e chato
Insiste em descrever-me dia
acompanhando sua mercê

Transgênica e louca e noturna
tento convencer-me de você.

III

Nasce outro dia
E o sol... O sol
O sol é o mesmo
O mesmo sol.

Os raios sim são diferentes
E passam... Apenas passam.

De leste a oeste
De leste a oeste
De leste a oeste
Insiste o sol... O Sol
O sol é o mesmo
O mesmo sol.

Mas os raios
Pobres raios
Os raios não são os de ontem.

Nem são independentes os raios
Os raios tem dono:
O sol... O sol é o mesmo
O mesmo sol.

Os raios sim são plurais
E passam... Apenas passam!

Perpétuo é sol
De oeste a leste
De oeste a leste
De oeste a leste
Insiste o sol... O sol
O sol sempre volta.

Mas raios
Pobres raios
Os raios se perdem

sexta-feira, 19 de abril de 2013

RECORDAÇÕES E ALGO MAIS



A tela

Seria apenas um espaço
branco
sem o sol sorrindo
entre nuvens claras
gaivotas

Não haveria um rio sinuoso
às suas margens
árvores, estrada
uma casinha simples
com chaminé
fumaça.

Apenas um espaço
branco
sem imaginação
nem nada que realce

Não fosse uma criança
seu mundo
um pincel sujo
e tinta guaxe. 

O verbo

Dentro de uma poça
de milhões e milhões
de gotas, poça
um vale... E nada.

Nada mais que conto
ou verso indefinido.
Definido verbo
que hora conto... Faça.

Então, uma poça
de milhões e milhões
de gotas, poça
um vale... E o infinito.

Sinestesia

O barulho era límpido
 sinestésico
e de notas desconexas
repetidas em assimetria.

Dessa maneira desfaleci
lentamente
preso ao som e cheiro
da maior naturalidade.

E por horas a fio
não parou de chover.

Roleta russa

Traga a última vela
[acesa]
meio dia.

Vem tempestade à noite
[fobia]
roleta russa.

Águas pra depois

Água escorrendo abaixo
em tempos de escassez?

É chuva que desce zangada
em casa
deixa essa água escorrer.

Vai água, passa, não para
limpa o bueiro, mané.

Depois se pensa na falta
d'água.

Pense no excesso que enche;
o saco e o rio e a rua
e o bairro e o carro
de água.
de barro.

Resistência

Não estou vivo
apenas respiro
alimento
adormeço
amanheço
e sustento a guia.

Como soldado que restou
pra guardar a carne
e hastear bandeira branca
[todo dia].