quinta-feira, 28 de outubro de 2010

POEMETOS II

" O Pensador" - Rodin
[PRÉ] OCUPAÇÕES

Não me apeteço da vida
no caos em que me edifico.
Nem sou cadência de tolo,
corro à frente da sombra
pra que não seja dela
reflexo de mim,
em sol de fresta janela.

O CRIVO

Se meus olhos fossem íntimos
à boca e dispensassem em mim
o crivo da razão, decerto eu
viveria só, em qualquer choupana
ou numa colônia de surdos,
[repreendendo minhas mãos].


A MÁGICA

Vivia a linha tênue
entre o Real e o imaginário, onde:
Real era a moeda dos vencimentos
e o tudo que se fazia com tão pouco,
[imaginário].



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

POESIA EXISTENCIAL


"Canção de amor" - Giordio de Chirico


II

O pensamento me trai!
Questiona fronte ao espelho
quem sou. E no corpo refletido
não encontro resposta.

Tudo que vejo é meu. Reconheço
cada curva estranha, cada traço
indesejado de mim, ou do tempo.
Tudo é meu, mas não sou eu.

O pensamento me trai!
E nele me encontro:
 -Sou ideia parasita sorvendo do corpo
a existência física que me cabe, abstraído
num ignóbil trato de servidão.

Sim! Exploro mãos e pés e cabeça,
mas sou apenas ideia parasita, afim
de perceber um mundo palpável que,
decerto não me pertence.





sexta-feira, 22 de outubro de 2010

POESIA EXISTENCIAL I


"O nascimento de um novo homem" - Salvador Dali.


I


Dedos lépidos em silhuetas
onduladas, brochura esquecida,
rabiscada em papel vergê.

Rosto pálido de feição blasé,
enluarado à paisana do tempo,
barba navalhada démodé.

Boca palavrada de infâmia,
língua mórbida, entrecortada,
rasgada da sede de dizer.

Tudo na mais perfeita
simbiótica da existência,
de se ter o maquinário da vida,
sem o ser.

[Sois o que?]

                        Poesia viva, estereotipada,
                        acaudilhando um corpo
                        através dos olhos, como se
                        fossem tela "despolegada" de tv.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

POEMETOS

"Abaporu" - Romero Britto


ÁGUA PRA DEPOIS

Água escorrendo abaixo
Em tempos de escassez.

É chuva que desce zangada
Em casa
Deixa essa água escorrer.

Vai água, passa, não para
Limpa o bueiro, Mané
Depois se pensa na falta
D'água.

Pense no excesso que enche
O saco
E o rio e a rua e o bairro e o carro
De água
De barro.

RESISTÊNCIA

Não estou vivo
Apenas respiro
Alimento
Adormeço
Amanheço
E sustento a guia.

Como soldado que restou
Pra guardar a carne
E hastear bandeira branca
(Todo dia).

CORREÇÃO VISUAL

Vez ou outra aflui um desejo:
_Que a razão me escape porvir.

Queria, ao menos uma vez
Perceber o mundo
(Com meus próprios olhos).

O VERBO

Dentro de uma poça
De milhões e milhões
De gotas, poça
Um vale... E nada.

Nada mais que conto
Ou verso indefinido
Definido verbo
Que hora conto... Faça.

Então, uma poça
De milhões e milhões
De gotas, poça
Um vale... E o infinito.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

VERDADES

"O sono" - Salvador Dali

Procuro-te incessantemente
Tu vens e nego-te!
Nego-te a meus olhos cegos
E em minha boca muda
Nego-te pela dor que me causas
E a aparência que me custas
Nego-te por todo mundo
E suas vãs desculpas
Nego-te por não aceitar ser assim
Tu vens e nego-te sim!

Mas não me deixes por esta fragilidade
Não quero acreditar que este o fim
Sempre nego-te por tudo
E algo mais que nem digo
Mas prefiro a dor severa das verdades
A uma vida inteira fugindo.