segunda-feira, 29 de novembro de 2010

VOA


"Carnaval de Arlequim" - Miró


                                                                                                          (A Renata)

Dentre as coisas que jamais entenderei,
refuto a linguagem doce de teus olhos.
Esta hipnose desconexa que me causas.
Este sabe lá o que, irresistível e pernicioso.

Refuto desconhecer tuas falas silenciosas
gritando a mim tão frenética e docemente,
que desfaleço, bobo, como estrangeiro à
tua malicia de encaixar-me onde queres.

Assim, choro não entender teu propósito louco
de salvar-me do analfabetismo sentimental,
por querer manter egoisticamente aqui,
ao ínfimo alcance do que vejo e toco,
o todo que me dedicas em qualquer canto.


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

POEMETOS III


Romero Britto

ACONTECER

Não escrevo poesia.
Ela é que me acontece
e traz em si todo predicado
de qualquer acontecimento.

A mim, espectador dos versos,
cabe a tradução da palavra acontecida.
[E toda sua experiência].



ÁGUA FRESCA
                                                              (A Ronaldo)

Basta! Disse o tio mais moço
Chega do suor de cavar este poço
Traga-me a bacia vazia e a maleta
Vou pra lá onde se fazem nuvens:
Também quero beber d’água fresca.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

DO BARRO

"Nascer do sol" - Monet


Provir dos natais de fevereiro,
veraneio em terras tupiniquins,
quando das mãos firmes do oleiro
o barro num rodalho deu-me fim.

Como arte em si heterogênea
respingada das chuvas de março,
vou pintalgando em cores de versos
a argila frágil de outros vasos.

Até que torne ao pó, moribundo
em qualquer dos dias de abril
ou nas noites frias de junho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ELEGIA AO PASSADO

"Relógio mole no momento de sua primeira explosão" - Salvador Dali


I


Não vejo mais o que viste
ou ouço o que disseste,
mas vivo tua morte
sou o que me deste
e fizeste.
Desejo-te mesmo ausente
Lá trás e longe e silente
Sabendo que não voltas cá,
onde me encontro. Cá,
onde me escondo de agora.
Como o fiz contigo outrora
negando-te quando presente.


II

Já desenhei sóis na calçada
e roguei clemência a São Pedro
contra as chuvas erráticas de janeiro.

Roubei frutas verdes de sabor desprezível
e briguei na escola, meio apavorado,
pra provar a todos que eu não tinha medo.

Fugi três vezes de casa pra rua de cima
e por longos vinte minutos tive a certeza
de que dali em diante estaria livre.

Imaginei a roseira vermelha, maldizendo
os botões que se perderam, em prol
de meus amores não correspondidos.

Tudo isso em alguns poucos anos sem maldade
em que tive a licença de cometer os erros
que já não me permitem as marcas no rosto.

E bem maior do que os supracitados
foi implorar com fervor o dia em que eu não mais
fosse esse bobo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CONFISSÃO

"Mona Lisa" - Leonardo da Vince


Não sei o que elas têm em mente,
mas tenho pena de nós, [fortes].
Pobres almas prepotentes as nossas.
Desejosas de mais, mentirosas por menos.

Espero o dia em que afastado,
eu possa rir de todo engano.
Das coisas que fiz por elas
da vida que dei a elas.
E nunca as tive!
[Elas é que me tiveram].

Mas as quis com fervor
e com tanto ardor as desejei e desejo
que se fez valer a pena todo medo.

Hoje sei das coisas permitidas
e não me importo de curvar-me a elas.
Sei que sabem, zombam e fingem fragilidade
e tudo é válido, pois o mundo não é nosso, camaradas.
Não irei ficar às margens do que agora é conhecido,
então cá me ofereço mulheres:
[Brinquem comigo].



* Uma justa homenagem a mulher , no dia em que elas chegam ao cargo máximo deste país. (independetemente de orientação política). As considero seres superiores e já havia declarado isso nesta poesia sem pretensões que escrevi há alguns anos. Um grande beijo a todas!