quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ELEGIA AO PASSADO

"Relógio mole no momento de sua primeira explosão" - Salvador Dali


I


Não vejo mais o que viste
ou ouço o que disseste,
mas vivo tua morte
sou o que me deste
e fizeste.
Desejo-te mesmo ausente
Lá trás e longe e silente
Sabendo que não voltas cá,
onde me encontro. Cá,
onde me escondo de agora.
Como o fiz contigo outrora
negando-te quando presente.


II

Já desenhei sóis na calçada
e roguei clemência a São Pedro
contra as chuvas erráticas de janeiro.

Roubei frutas verdes de sabor desprezível
e briguei na escola, meio apavorado,
pra provar a todos que eu não tinha medo.

Fugi três vezes de casa pra rua de cima
e por longos vinte minutos tive a certeza
de que dali em diante estaria livre.

Imaginei a roseira vermelha, maldizendo
os botões que se perderam, em prol
de meus amores não correspondidos.

Tudo isso em alguns poucos anos sem maldade
em que tive a licença de cometer os erros
que já não me permitem as marcas no rosto.

E bem maior do que os supracitados
foi implorar com fervor o dia em que eu não mais
fosse esse bobo.

16 comentários:

Zélia Guardiano disse...

Muito belo poema, Pablo!
Muito belo!
Um olhar voltado para o início do túnel, que, como será ao final? Haverá luz?
Adorei, meu querido!
Grande abraço

Ingrid disse...

Pablo
nossas memórias são boas e nos levam adiante..
lindos..
um beijo.

Valéria Sorohan disse...

Sua sensibilidade capta em poesia aquilo que merece ser adormecido: as coisas delicadas do coração.
Meu beijooO'

Rayuela disse...

somos
nuestro
pasado


hermosa elegía!
mil besos*

Malu Machado disse...

Olá Pablo,

Peço licença para entrar no seu blog. Vim te visitar e me encantei com sua poesia.

Quando criança muitas vezes sonhei que fugiria com um grupo de ciganos. rss.

Até hoje ainda opero fugas da minha realidade. Fugas necessárias para manter a sanidade.

Ficarei muito honrada se receber visita sua.

Um abraço e até breve.

Canteiro Pessoal disse...

Pablo, o título: viver em palavras, enlaçou-me de um jeito, que me arrastou ao lugar de face a face: ser palavras. Palavras que revelam a todo instante a alma, e sinaliza metamorfose, contudo nos assusta e tornamos imerecedores de tão graça, sendo preciso descorrer como se tatea seda. Pode-se dizer, que seus dedos revelam peculiaridade e agraciados são os que podem se alimentar de sua voz letrativa.


Abraços

Mirze Souza disse...

Pablo!

Recorrer e percorrer o tempo que passou, é matéria viva para poucos.

Seu belíssimo poema me fez ver a memória presente, ou matéria flutuante em nós.

Maravilhoso!

Beijos

Mirze

Lara Amaral disse...

O passado fincado nos poetas como uma nostalgia obrigatória... às vezes dói relembrar, então escreve-se.

Beijo, querido.

Palavrácido disse...

São belas palavras as suas meu caro! adorei vir por aqui e ler tais pontos reflexivos, tais versos muito dignos. Já estou a te seguir, e quero ressaltar já, desde já, minha profunda admiração por essas palavras. Eu também...já me perdi, em muitas coisas, que você retrata em seus versos...amores não correspondidos. hehe

bom, fique bem
e que Deus te projeta
iluminando cada dia mais
esse seu gosto pela arte.

Dan

Adriana Karnal disse...

ah, a adolescência nos faz de bobo, a adolescência é boba....que delícia brincar com ela.

Ingrid disse...

olá Pablo,
tem selinho pra voce lá no meu blog.
beijo.

CAROLINA CAETANO disse...

Ah! Mas fica bem melhor sendo blogspot! Assim, posso te seguir sem perder o fio.
Lindos versos arrebatados por Dali! Agora, vou ler tudo que havia perdido. Estou em dívida com sua palavra.
Um beijo, poeta!
Carolina.

Livinha disse...

Heaveres, lembranças...
Sempre haverá uma luz no fim do tunel, que muitas vezes achamos não ter, esquecendo que ele é longo e curvilíneo.
Se amaste, não foste bobo, foste alguém terno e adorável. Se erraste, não foi por maldade, mas por não saberes da vida todas as verdades...
Caminhe. O mais importante é reconstruir..

Lindo poema Pablo

Bjs

Livinha

Batom e poesias disse...

Poetas gostam de remoer lembranças, até que todo o sangue da dor transforme-se em tinta de escrever poesia.

Viva a memória!
bjs

Rossana

★★ GIZA ★★ disse...

OLA
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BEIJOS

Tania regina Contreiras disse...

Te ler é muito bom. Ando sem tempo, sem poesia, sem nada...rs...mas passar nos amigos e lê-los me enche de esperança e traz cores à alma. És, verdadeiramente, umpoeta!

Beijos,