terça-feira, 28 de dezembro de 2010

POEMA PARA FINDAR O ANO

Romero Britto


Vejo tua fome insana do mundo
Como se tua, fossem todas as coisas
E lhe faltasse apenas estender as mãos
Para abarcar a vida de uma só vez.

Como se tua existência fosse apenas
A chuva e o riso e a lágrima de agora
Menosprezando as gotas que outrora
Percorreram tua pele, marcando o tempo.

Sem conceber novos sóis a cada manhã.
Calmarias inesperadas e tormentas insensatas
Que mudam o rumo de caravelas desavisadas.

É preciso ciência! É preciso paciência!
O que és não vem somente de ontem.
Não é apenas o de agora, nem tampouco
Far-se-á sozinho da espera incerta do amanhã.

[É poeira misturada no tempo de uma vida inteira].


Desejo a todos um Ano Novo marcado pela fome sensata de viver e realizar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ENTRE PARÊNTESES

"Chorões" - Cândido Portinari


Entre parênteses é que as coisas acontecem.
Meus versos trôpegos reivindicam sentido
Girassóis secos ganham nova chance a leste
Toda tormenta imaginária faz chuvisco de granizo
E o amarelo de teus cabelos brilha um que a mais.

É entre parênteses que lhe confiro minhas cores
E o rubor da face delata minha insensatez
A brisa que em ti rodeia leve, destacada
Faz chegar a mim teu cheiro francês
E o amarelo de teus cabelos brilha um que a mais.

Eu, pobre poeta nesta janela insólita da vida
Com um desdém mal feito em rabo de olho
Aguardo o dia em que possas me ver assim:
Delineado entre os parênteses dos teus dedos
E o negro de meus cabelos brilhando um que a mais.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

RESPOSTA A NIETZSCHE

Ousei ser diferente de ti
Buscando arduamente a verdade.
Como se já a tivesse visto por aí
Em qualquer manhã frívola
Descendo corredeiras ao nada.

Então lhe fiz a usual carantonha
De quem diz não importar-se.
Menti! Busquei contradito
Aquilo de que tanto falaste.

E não a encontrei no fim do rio.
Meu rio nem ao menos teve fim.
Mas ela não está lá, eu sei.
Ela nem existe em si
Apenas se faz, conforme a dança
E muda o passo
Julgando-se exaurida de sentidos
Quando meus passos se aproximam.

Veritas semper mutans”, Nietzsche.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

PARADOXO

Frida Kahlo


Fosse tudo que nego, aquilo que busco
e o que sinto, as coisas que faço.
A palavra refutada o meu dizer mais coerente
e teu sentido, o maior engano.

Fosse esta escuridão tão clara quão demonstro
e esta chuva insensata só lágrima lastimada.
As curvas da vida tão fechadas quanto vejo
e as retas, imensas, largas e lisas quanto ensejo.

Fosse tudo assim paradoxo em verso solto e desmedido.
E eu tão livre de mim como escrevo tal dilema.
Fosse fácil fazer poesia de vida quase alheia. Alheio,
[assinaria este poema].

sábado, 4 de dezembro de 2010

POESIA EXISTENCIAL

Pablo Picasso


III

Vez ou outra me descubro em verso novo
ou folha que cai revolta pelo vento.
Basta uma luz de fresta e sua poeira visível
pra saber quão pequeno é tudo que conheço.
Refaço-me calado em cadafalso.

Tudo muda o tempo todo sem que esta cegueira o perceba.
Sem saber que não há profundidade verdadeira na vida
que ultrapasse poça d’água. São os erros que afogam.

As coisas que nego ou profiro com veemência,
são desculpas que respondo às mentiras que vivo.
Os nomes que dou são irrelevantes por serem meus.
O tempo, apenas uma forma mórbida de prever o quanto
me resta de pó sobre o mundo que percebo.

Mas há algo que acontece amiúde em mim,
toda vez em que abro os olhos para a verdade,
que nada define ao certo, nem tem prazo de validade.