terça-feira, 11 de janeiro de 2011

FLOR AZUL



Romero Britto



Uma flor azul anil
Infinita, indivisa
Trina, imaculada
Nascida em rocha bruta
Onde a terra finda
Onde faz o mundo
E se desenham sois
Luas
E se cria tudo
E no tudo, um vento
Branco, alado
Sábio, esperançado
Espalhando o pólen
De uma flor azul anil
Infinita, indivisa
Trina, imaculada
E sobre a terra
Flores diversas
Escuras, claras
Róseas, liláceas
Concebidas à semelhança
De uma flor azul anil
Infinita, indivisa
Trina, imaculada
Tão deformadas
Manchadas, marcadas
Que desce a rocha bruta
Onde a terra finda
Onde faz o mundo
E se desenham sois
Luas
E se cria tudo
E no tudo, a salvação
A flor azul anil
Infinita, indivisa
Trina, imaculada
E se mistura aqui
Em coroa de espinhos
E se faz finita aqui
Em coroa de espinhos
E desfalece aqui
Em coroa de espinhos
E retorna à rocha bruta
Onde a terra finda
Onde faz o mundo
E se desenham sois
Luas
E se cria tudo
E no tudo, heresia
E estória
E conto
E poesia
Infinita, indivisa
Trina, imaculada.
 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A ORAÇÃO

Salvador Dali

Havia um que nos olhos dela
E na postura encurvada dela
E nas balbúrdias que lamuriava.

Havia claridade à fronte dela
E uma auréola sobre ela
E algo a mais ali sem palavra.

Havia fé no indecifrável dela
E um ardor radiante nela
E um motivo acima do mundo.

Tudo em uma única lágrima caída
E no amarelo desbotado de uma vela.