segunda-feira, 30 de maio de 2011

ALHEIO


Rosa dos Ventos


É admirável o mar alheio.
O submerso intencional
Onde ondas rasas não molham pés cansados
Grãos de areia não carecem de sentido
E o azul cristalino;
Ou verde desbotado jamais mentem.

Ali navega o descompromisso:
Naus fantasmagóricas
Tão distantes
Tão próprias
E desfeitas de conceitos arraigados
Que o mar alheio não teme julgamento.

É invariavelmente melhor
Talvez por isso ou aquilo
Talvez por tudo
Ou por não trazer em si a mácula
De tudo que nos pertence.



sexta-feira, 20 de maio de 2011

POETA E POESIA


Eitoku kano


Se não posso falar-te
Que te escrevas sempre.
E imortalizando meus dizeres
Compreendas que te quero mais...
Bem mais que qualquer arrebol mentiroso
Anunciando aos nostálgicos teu fim...

Que tal fim não exista em nós
Mesmo que não possa ver-te.
Se assim for, que te sintas como hoje
E eternamente um pouco a mais do que esperavas
Por que esperar é certeza de algo por vir
Como se existir fosse... Daqui pra frente.

Que assim seja!
Daqui pra frente e avante e sempre.
Pois se não posso falar-te
Que te escrevas... Sempre.
E se não posso ver-te
Que te sintas... Como hoje
Eternamente.

Até que não mais exista o que sou
O que somos...
Ou teu sentido pereça à mercê do desdém.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

POESIA SEM TÍTULO

Romero Britto


I

Enfim lhe chegara a órbita da vida
E teus pés tocam levemente esta terra batida
Bem ali, no andar de baixo
A quatorze degraus desajustados
Não mais que quinze ou dezesseis movimentos
Descompassados.

Concreto, tangível, palpável
Tudo tão perto de perder o sentido
Que o medo lhe faz companhia
É nessa hora que o segredo se revela:
Não é fácil viver aquilo que era magia.