quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

AMPULHETA



A vida parou na moldura...
Sobre o criado empoeirado,
Fotos em preto e branco, nostalgia
E saudade crua de coisas
Que em tempo jamais existiram.

Sopra um vento, aguçando a mangueira
Vem chuva penetrando as frestas do barro;
A janela é de madeira... Velha madeira.

Nesse instante tudo é lento demais.
Olhar fixo, testa franzida
A areia do tempo sinteriza:
Nada se cria, nada se move;
E o detalhe de uma vida inteira
Escapa entre os dedos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

CURUPIRA

The Acrobat - Pablo Picasso


Quisera a existência fixar-se no horizonte
Como pêndulo em sol a pino:
                                                Meio dia que foi
                                                Que há de ser.

Atrás, resta a sombra vazia apenas copiando o rumo
Num rastro em terra batida de tudo que foi.

Importa-nos sim:
Pés virados no caminho traem a direção
Hesita;
Perde a hora;
Quebra a linha;
O zig zag;
O balanço.

A tarde se vai sem dono então.
Fica o tempo em que toda respiração
Fez-se monóxido.

Até novo dia...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ENCRUZILHADA

De mim se vai, desavisado, o poeta
Para a vida, a estrada, o paradoxo,
A ideia frágil da tela que se pinta
Enquanto há curva no vale a ferro aberto
(E seu progresso).

Talvez retorne logo mais
Às seis da tarde dos dias.
Ou qualquer domingo lento
Que se arraste no alto de uma serra
Onde apenas o frio passa,
Canta, envolve, assobia
E marca a eternidade do verso vivido
(Quase sem saber).