sexta-feira, 19 de abril de 2013

RECORDAÇÕES E ALGO MAIS



A tela

Seria apenas um espaço
branco
sem o sol sorrindo
entre nuvens claras
gaivotas

Não haveria um rio sinuoso
às suas margens
árvores, estrada
uma casinha simples
com chaminé
fumaça.

Apenas um espaço
branco
sem imaginação
nem nada que realce

Não fosse uma criança
seu mundo
um pincel sujo
e tinta guaxe. 

O verbo

Dentro de uma poça
de milhões e milhões
de gotas, poça
um vale... E nada.

Nada mais que conto
ou verso indefinido.
Definido verbo
que hora conto... Faça.

Então, uma poça
de milhões e milhões
de gotas, poça
um vale... E o infinito.

Sinestesia

O barulho era límpido
 sinestésico
e de notas desconexas
repetidas em assimetria.

Dessa maneira desfaleci
lentamente
preso ao som e cheiro
da maior naturalidade.

E por horas a fio
não parou de chover.

Roleta russa

Traga a última vela
[acesa]
meio dia.

Vem tempestade à noite
[fobia]
roleta russa.

Águas pra depois

Água escorrendo abaixo
em tempos de escassez?

É chuva que desce zangada
em casa
deixa essa água escorrer.

Vai água, passa, não para
limpa o bueiro, mané.

Depois se pensa na falta
d'água.

Pense no excesso que enche;
o saco e o rio e a rua
e o bairro e o carro
de água.
de barro.

Resistência

Não estou vivo
apenas respiro
alimento
adormeço
amanheço
e sustento a guia.

Como soldado que restou
pra guardar a carne
e hastear bandeira branca
[todo dia].





sábado, 13 de abril de 2013

PLURALIDADE



Das coisas hora estranhas
prendo-me à chuva lá fora
no momento em cinza

buscando entender o crioulinho
que pula, pia e sacoleja as penas
espalhando as gotas lhe oferecidas.

O varal não lhe é disfuncional
agora, como a mim, que recebo
a hora mais lenta de mal grado

sem saber se temos olhos iguais
já que o que há dentro é diferente
e o mundo, feito em camadas

diverge absoluto entre a tela,
comprada em um brechó barato,
de ideias comuns

e o imaginário solitário
que cada ser constrói
sobre a mesma chuva
dentro e fora de si mesmo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

BANALIDADE



Todas as coisas que tenho são tuas
e em ti devo fixar o pensamento
e olhar-te intensa e apaixonadamente
a cada abrir de olhos que me deres.

Assim seja em cada mínima parte
e simultaneamente no todo
feito enxurrada de uma gota só
descendo em meio à tempestade.

Porque cada devaneio é válido
cada instante é passível de ser último
e não há espaço para ser vago
ou tratar o dom maior como banal.

Abraça-me então, dessa maneira
hoje, amanhã, daqui pra frente
perdoando as faltas que deixei lá atrás
não contemplando qualquer sutileza.

Que abraçarei o que me reservas
sem tomá-la como sobra que resta
pois não pode ser   “resto da vida”
nem o derradeiro suspiro sequer.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

VOLTA



Não vá onde não possa ver-te
quem de pronto te descreves
sem esperar que sejas nada
alem do que fazes quando olhas
enviesada, pensando em nascer.

Estás pronta. Podes ir se quiseres.
Não tão longe. Não na penumbra
que deixa as pálpebras arreadas
sem a manufatura de escrever-te,
sem a transferência de uma ideia
 que propriamente jamais viu e
sem deixar que possa ser o que é
aquele que o é unicamente por ti.